Mulheres de Fibra

Resultou do Projeto Fibras, iniciativa de intervenção socioambiental iniciada em 2006 por um grupo de docentes e acadêmicos dos cursos de Geografia e de Biologia do Câmpus do Pantanal da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), visando equacionar dois problemas relevantes na maior cidade sul-mato-grossense situada no Pantanal (Corumbá, MS), a saber: a) uma importante demanda local de produtos que contribuam para a recuperação da cobertura vegetal das áreas degradadas resultantes da extração de minério de ferro e manganês a céu aberto, para qual foi proposta a produção artesanal de biomantas de fibras vegetais; e, b) a existência de uma grande oferta de força de trabalho, principalmente mulheres chefes de família, oriunda da comunidade de pescadores do Bairro Cervejaria, na região ribeirinha e periférica da cidade, que se constituiu na equipe produtora do projeto.

No diagnóstico, detectou-se um alarmante quadro de vulnerabilidade socioeconômica, com elevado índice de desocupação, informalidade, baixa escolaridade e analfabetismo, mas também se constatou que 92,3% do público alvo, predominantemente feminino, procurava uma atividade alternativa capaz de gerar renda, além da expectativa de desenvolver um trabalho comunitário e a consciência da preservação do ambiente em que estão inseridas. Iniciaram-se as atividades do projeto em outubro de 2006, com trinta e três pessoas, dos dois gêneros, do Bairro Cervejaria, um dos bolsões de pobreza de Corumbá. A maior parte vinculada à atividade pesqueira ou trabalhos eventuais e informais, sem registro em carteira de trabalho. O público-alvo conformou-se com vinte (20) mulheres, adultas, chefes de família, com uma grande diversidade etária, moradoras do referido bairro, cuja situação econômica agravou-se pela suspensão de programas sociais do estado de Mato Grosso do Sul: o Programa Bolsa-Escola e o Programa de Segurança Alimentar, programas que permitiram certa estabilidade econômica.

No decorrer de 2006 a 2013, com o apoio financeiro da empresa mineradora Rio Tinto – atualmente da Vale – e a concessão de local pela Prefeitura Municipal de Corumbá, foi possível alcançar as duas principais metas do projeto, a saber: a confecção artesanal de biomantas de fibras vegetais e a formação de uma equipe produtora, que pretende constituir uma associação de artesãs para gerir sua atividade com maior autonomia, na perspectiva da economia solidária.

Este projeto possibilitou a geração de conhecimentos e técnicas, e por outra parte, ações inovadoras de organização de trabalho com a participação da equipe produtora, num processo que envolve a valorização cultural e o resgate dos saberes comunitários com base em práticas ecos-sustentáveis. Assim, propôs, de modo interdisciplinar, integrar as vertentes social, econômica, tecnológica e ambiental, com dois objetivos: a) desenvolver conhecimentos, métodos e técnicas de preparo de fibras vegetais para a produção e tecelagem de biomantas com materiais que proporcionem resistência e durabilidade necessária para a reposição da vegetação nas áreas degradadas; e, b) o desenvolvimento de práticas solidárias e de afirmação comunitária para a geração de renda.

Com base nestas duas metas o Projeto Fibras alcançaram-se resultados relevantes como: o desenvolvimento da técnica do “tear de prego”, como resultado da combinação dos saberes tradicionais para a confecção artesanal de mantas de fibras vegetais e da utilização de inovações de técnicas que proporcionem resistência e durabilidade às fibras vegetais usadas; a produção artesanal diversificada de biomantas de fibra vegetal: de trama lisa e de trama trançada, com tamanho padronizado e devidamente testada em taludes de áreas mineradas.

Também, foram atingidas as seguintes metas na região do Pantanal: a carência de um produto necessário para mitigar os impactos ambientais resultantes da ação das empresas de mineração da região mediante a reposição da cobertura vegetal do solo impactado; a contribuição para o desenvolvimento de tecnologias endógenas que propiciem o desenvolvimento socioeconômico da comunidade local; a organização associativa do público-alvo ou equipe produtora, que se constitui como referência para outros segmentos das populações tradicionais pantaneiras; e, a certificação como tecnologia social pela Fundação Banco do Brasil em 2013. Resta, contudo, impulso às necessidades de ampliação da escala de comercialização, ações solidificadoras do empoderamento do grupo de mulheres, aprimoramento da capacidade organizativa da Associação e articulação territorial com outros EES, que se propõe neste projeto.

Quanto às estratégias de sensibilização, mobilização e seleção das demandas de incubação, essas serão participativas, valorizando os interesses das populações incubadas. Contudo, não se partirá do nada, pois todos os EES já são parceiros e objetos de ação dos pesquisadores da UFMS/CPAN. Abre-se, por outro lado, a possibilidade de inclusão de novas demandas em razão do dinamismo social, de forma geral, dos EES. Nesse sentido, a seleção das demandas se dará em razão das áreas de conhecimento presentes no CPAN/UFMS e dos seus parceiros.

mapa corumba